
Enquanto uns choram, outros vendem lenços
A principal lição que o COVID-19 ensinou a empresários e jovens empreendedores no Sudeste Asiático
Parece que o COVID-19 chegou mesmo para ficar por mais tempo e nos afetar mais profundamente do que estávamos prontos para aceitar. Países que recentemente relaxaram as restrições vigentes até semana passada, viram o número de infectados aumentar novamente e ultrapassamos os 5 milhões de casos confirmados em todo o mundo.
Escrevo estas palavras às vésperas de completar 10 semanas trabalhando remotamente, sabendo que ainda temos pelo menos mais 5 semanas pela frente aqui em Cingapura.
Quando o primeiro ministro anunciou a extensão do “circuit breaker” (apelido carinhoso dado ao “lockdown” por aqui)soubemos que ainda teríamos 6 semanas pela frente e muitos entraram em desespero. Vimos novamente noticiários relatando continuamente os episódios tragicômicos vivenciados por aqueles que inocentemente buscavam repor seu estoque de produtos de higiene pessoal.
A explosão de casos em dormitórios de trabalhadores extrangeiros nas últimas semanas acabou com qualquer fantasia de que as restrições diminuiriam no início de Maio.
Apesar dos lampejos de esperança sobre a possibilidade de encontrarem uma vacina em algum canto do mundo, ainda não há herói nenhum capaz de salvar a pátria e estancar a desesperadora contagem de vidas perdidas diariamente para esta peste. Isso é real.
O lado racional do meu cérebro grita:
“Bom, essa é a coisa certa a se fazer, precisamos mesmo ficar isolados para que o vírus seja controlado”
enquanto o lado emocional não poupa vocabulário censurado e grita algo do tipo:
“O quê? Não pode ser! Como vou lidar com isso? Como meu filho vai lidar? Preciso sair! Quero minha vida de volta!”
Até então apenas observávamos o “novo normal” vivido pelos milhões de chineses, italianos e espanhóis, à medida que suportavam (e muitos continuam suportando) dias intermináveis em casa, preocupados com sua saúde e com o desejo de fazer qualquer coisa que parecesse apenas … normal novamente.
Uma coisa é olhar de longe, outra completamente diferente é sentir no próprio estômago. Cada um precisa encontrar uma maneira de enfrentar e reagir a esta situação mas confesso que aceitar o “novo normal” não deveria estar entre suas alternativas.
Particularmente prefiro mesmo é estar na piscina no andar de baixo brincando com meu filho e minha esposa, encontrando colegas de trabalho no escritório e pegar o metrô sem a preocupação de precisar me esquivar de toda e qualquer gotícula projetada no ar pelo espirro de um ser sentado a dois vagões de distância.
Eu odeio essa pandemia e o “novo normal” em que estamos agora. Ele é péssimo. É aflitivo. É terrível e, caramba, temos ainda meses ou anos pela frente?
Temos que aceitar o fato de estarmos passando por um período maquiavélico e impiedoso em nossa história, não importa quantos filmes você consiga assistir ou quantos cursos de aprendizado online você possa fazer para se distrair. É de pirar.
Em meio à tanta incerteza, a única certeza que tenho é que em algum momento você já surtou, está surtando ou ainda vai surtar.
Mas e aí, o que fazer?
O mais importante é aceitar que surtar é absolutamente normal em uma situação como esta. Não há problema em surtar.

A segunda coisa mais importante é decidir o que você faz quando esse momento acontecer com você. É preciso encontrar sua própria maneira de transformar essa explosão de emoções em algo produtivo. Lembre-se que a realidade maior está fora do seu controle mas que você ainda detém total controle sobre suas escolhas.
Converso diariamente com colegas e clientes na Índia, Vietnã, Indonésia, Tailândia, Filipinas, Malásia, Austrália e outros países da Ásia. Converso com colegas e familiares enfrentando esta pandemia na Europa Central e Estados Unidos. Converso também com amigos e familiares vivendo esses dias pavorosos no Brasil. Posso garantir: todos, sem exceção, estão tendo que lidar com alguns dos dias ou semanas mais difíceis de suas vidas.
Sugiro que você, jovem empreendedor ou empresário experiente, tente dar-se o tempo e espaço necessários para ficar assustado, nervoso, incerto, mas que em seguida busque obsessivamente caminhos para transformar sua angústia em trabalho e resultado.
Muito se discute sobre as perdas, o drama, os atritos sociais e institucionais em países com pouca ou nenhuma preparação para enfrentar a crise. Precisamos acreditar que embora a inevitável desaceleração global que vivemos seja inquestionavelmente um momento para contemplar e olhar para trás, devemos tambémpermanecer receptivos à noção de que o progresso muitas vezes vem de situações desastrosas, em outras palavras: crises exigem soluções criativas.
Independentemente da filosofia econômica de cada um, o alcance global desse vírus deve agora mais do que nunca incentivar a colaboração contínua entre indivíduos e também entre os setores público e privado.

A humanidade precisa avançar, especialmente quando está sob tanta pressão. Seríamos tolos em não procurar oportunidades nestes momentos. Inventividade, adaptação e talvez até o instinto de proteger e preservar a nós mesmos, coletivamente nos forçam a reconhecer novas oportunidades, seja para atender aos aspectos econômicos tão duramente impactados ou para nos ensinar a lidar com eventos semelhantes no futuro.
Infelizmente o Covid-19 não será a última crise que enfrentaremos.
Vimos esta crise despertar o espírito empreendedor e solidário de empresas consolidadas. Fabricantes de automóveis passaram a fabricar respiradores. Renomadas empresas de moda mudaram seu foco para a produção de máscaras e outros equipamentos de proteção. Empresas de bebidas convertendo suas linhas para produzir álcool gel antisséptico.
Sabemos que muitas destas medidas são temporárias, mas por que não aproveitar para repensar seu modelo de negócio?
As empresas de serviços, em particular, provavelmente verão muita inovação em como os serviços são criados, empacotados e vendidos, com a presença online ganhando relevância ainda maior.
Momentos de crise como este são também determinantes para construir ou destruir a reputação de empresas. Aquelas que demonstrarem solidariedade apoiando com doações ou mesmo adaptando seu negócio para ajudar onde for necessário, além de tratar respeitosamente seus colaboradores, certamente terão fortalecido sua reputação, atraindo novos talentos e aumentando a retenção de sua força de trabalho.
E você, já pensou em como aproveitar esse momento para criarsua prória nova realidade uma vez que tudo isso tiver terminado?
